Pular para o conteúdo

Para colegas

Avaliação da queixa cognitiva: material de consulta rápida

Material de consulta rápida sobre avaliação inicial, rastreio, investigação e biomarcadores, reunido para que uma informação seja localizada em poucos segundos. Não substitui as diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia, referenciadas ao longo da página.

Painel de consulta rápida

PerguntaResposta rápida
Há déficit objetivo?Rastreio ajustado por escolaridade + funcionalidade
Há perda de autonomia?Pfeffer / FAST / CDR conforme contexto
Evolução em semanas–meses?Avaliação urgente; ampliar investigação de causas tratáveis
Início <65 anos ou apresentação atípica?Avaliação prioritária
Biomarcador de Alzheimer?Somente após definição da síndrome e quando o resultado muda a conduta
Suspeita de DFT?RM estrutural + considerar FDG-PET conforme hipótese
Anti-amiloide?CCL/demência leve + amiloide confirmado + APOE + RM de elegibilidade + estrutura de monitoramento

O que já é possível delimitar na primeira avaliação

Um roteiro curto

1. Documentar a queixa com um informante

2. Aplicar rastreio com ponto de corte ajustado por escolaridade

3. Medir funcionalidade

4. Excluir o que é reversível ou contribuinte

Quatro itens aumentam substancialmente o rendimento da primeira consulta especializada:

1. Documentar a queixa com um informante. Sem informante, a avaliação perde a informação mais valiosa que existe — o que mudou, em que ordem e em quanto tempo. Anosognosia está presente em até metade dos casos de doença de Alzheimer,[4] e o autorrelato isolado subestima sistematicamente o prejuízo.

2. Aplicar rastreio com ponto de corte ajustado por escolaridade. É o item mais negligenciado e o que mais gera erro nos dois sentidos. Ver a seção seguinte.

3. Medir funcionalidade. O que separa comprometimento cognitivo leve de demência não é o escore do rastreio, é a autonomia. O Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer é rápido, respondido pelo informante, e sofre pouca influência de idade e escolaridade — escore acima de 4 sugere prejuízo funcional.[1]

4. Excluir o que é reversível ou contribuinte. Hemograma, função renal e hepática, sódio, potássio, cálcio, glicemia, perfil lipídico, TSH e T4 livre, vitamina B12, ácido fólico, sorologia para sífilis — e HIV em casos atípicos.[4] Neuroimagem estrutural para todos: ressonância quando possível, tomografia como alternativa. E, sempre, revisão da lista completa de medicações, incluindo as de venda livre.

Feito isso, o caso chega com uma hipótese, e não com uma pergunta aberta. Costuma economizar meses de investigação.

O que muda a urgência

PrioridadeSituações-chave
EletivoDéficit confirmado; dúvida etiológica; queixa persistente com rastreio normal em alta escolaridade; revisão de demência já diagnosticada
PrioritárioInício <65 anos; apresentação atípica; sinais focais/parkinsonismo/mioclonias/crise recente; contexto autoimune, neoplásico ou imunossupressão
UrgenteDeclínio cognitivo significativo em semanas a poucos meses

Esse último merece justificativa.

29,8%tinham etiologia potencialmente reversível
9,6%de fato melhoraram

Série de 104 casos de demência rapidamente progressiva, quatro hospitais terciários de Florianópolis, 2001–2020.[15]

A distribuição etiológica muda radicalmente conforme a investigação: no subgrupo que realizou ressonância e líquor, as causas autoimunes passaram a ser as mais frequentes (21,2%). Sem líquor, elas simplesmente não apareciam.

Dois dados do mesmo estudo que dizem algo sobre a nossa prática: apenas 42,3% dos pacientes realizaram exame de líquor, e a revisão diagnóstica sistemática mudou o diagnóstico em 41,3% dos casos.[15]

Rastreio: qual instrumento, qual corte

A recomendação da Academia Brasileira de Neurologia é usar MEEM e Bateria Cognitiva Breve como rastreio de rotina, reservando o MoCA para escolaridade acima de 12 anos ou quando a avaliação de função executiva for o objetivo — porque MEEM e MoCA são fortemente afetados pela escolaridade.[1]

MEEM — pontos de corte brasileiros

EscolaridadeCorte
Analfabetos≤ 19
1 a 4 anos≤ 24
5 a 8 anos≤ 26
9 a 11 anos≤ 27
12 anos ou mais≤ 28

Bateria Cognitiva Breve[1]

Desempenho normal: memória incidental ≥ 5, memória imediata ≥ 7, aprendizado ≥ 7, evocação tardia ≥ 6, reconhecimento ≥ 8. Fluência semântica (animais/minuto): analfabetos ≥ 8, 1 a 7 anos ≥ 11, 8 anos ou mais ≥ 12. É o instrumento com melhor desempenho em baixa escolaridade.

MoCA — consulta rápida por idade e escolaridade

MoCA — pontos de corte para a população brasileira

Normas de Apolinario et al., 2018 (n = 597). Escore total, sem o ponto adicional por baixa escolaridade.

Informe idade e escolaridade para ver os pontos de corte.

Normas derivadas de amostra brasileira de 597 participantes, estratificadas por idade e por ano de escolaridade.[25] Os valores referem-se ao escore total sem o ponto adicional por baixa escolaridade.

Por que isso não é preciosismo

O artigo original do MEEM, de 1975, não menciona escolaridade em nenhum ponto — não mediu, não estratificou, não alertou.[7] O estudo de incidência de Tremembé mostra o tamanho do efeito na nossa população:

59,2por 1.000 pessoas-ano em analfabetos
10,5por 1.000 pessoas-ano com mais de 8 anos de estudo

Incidência de demência no estudo de Tremembé — quase seis vezes.[8]

Parte disso é risco real; parte é o que um instrumento mal calibrado transforma em diagnóstico.

Investigação dirigida por hipótese

O princípio, explícito na diretriz brasileira de biomarcadores: o diagnóstico clínico da síndrome cognitivo-comportamental é o passo inicial que orienta a solicitação de biomarcadores — não o contrário.[5]

O fluxo intersocietário europeu

A referência que melhor organiza a investigação hoje é o documento intersocietário europeu de Frisoni e colaboradores (Lancet Neurology, 2024).[27] Ele tem duas virtudes que faltavam às diretrizes anteriores: parte da pergunta clínica, não do exame disponível, e assume explicitamente que a solicitação de biomarcador precisa ser justificada pela probabilidade pré-teste e pela consequência do resultado.

O fluxo organiza a investigação em ondas:[27]

OndaObjetivoFerramentas principais
0Triagem e estadiamentoHistória + informante, exame, rastreio, funcionalidade, sintomas neuropsiquiátricos
1Definir a síndrome clínicaNeuropsicologia quando necessária + neuroimagem estrutural + exclusão de causas secundárias
2Testar a hipótese etiológicaAlzheimer: líquor; DFT: FDG-PET; DCL: DAT-SPECT, conforme contexto
3Resolver incongruênciaBiomarcador de segunda linha apenas se o primeiro for inconclusivo

Duas recomendações de recorte etário do mesmo documento: uso de biomarcador é fortemente recomendado abaixo dos 70 anos; entre 70 e 85 depende do perfil clínico; acima de 85, em geral não é recomendado.[27]

Fluxo diagnóstico em ondas das recomendações intersocietárias europeias.
Figura 05. Investigação em ondas: cada etapa só acontece se a anterior justificar.

Biomarcadores: quem, quando e qual — no contexto brasileiro

Antes de solicitar

  1. Déficit objetivo?
  2. Síndrome definida?
  3. O resultado mudará diagnóstico/conduta?
  4. Escolher biomarcador pela hipótese.

Se qualquer resposta for “não”, reconsiderar a solicitação.

Em quem não solicitar

  • Indivíduos assintomáticos.[5]
  • Declínio cognitivo subjetivo sem alteração em testes objetivos.
  • Demência avançada, exceto quando o objetivo é excluir doença de Alzheimer e isso muda a conduta.
  • Predição de risco em pessoas sem comprometimento cognitivo objetivo.

Dois argumentos sustentam essa posição, e vale tê-los na ponta da língua para a conversa com o paciente que chega pedindo o exame: não há tratamento modificador aprovado para a fase pré-clínica, e nem todo biomarcador positivo progride.

Em série de 97 pessoas que morreram sem demência, com idade média de 84 anos ao óbito, cerca de 40% preenchiam ao menos algum grau de critério neuropatológico para doença de Alzheimer, e cerca de 20% preenchiam os critérios estritos.

Repare no desenho do estudo, porque é ele que dá o sentido ao número: são pessoas que não tinham demência. Os dois percentuais descrevem a mesma amostra sob dois limiares de critério — não são um grupo e um subgrupo que evoluiu de forma diferente. O dado não informa quantos portadores da patologia acabam convertendo, nem em quanto tempo; informa que a patologia é comum entre quem nunca manifestou a doença. É a razão pela qual biomarcador positivo isolado não estabelece doença clínica, e pela qual o exame sem pergunta clínica pode transformar uma pessoa saudável em paciente.

Em quem solicitar

Pacientes sintomáticos com déficit objetivo (CDR ≥ 0,5), nas seguintes situações: início antes dos 65 anos; demência rapidamente progressiva; apresentação atípica ou suspeita de sobreposição; diagnóstico diferencial com outras degenerativas; possibilidade de indicação de terapia anti-amiloide; ou quando o próprio paciente toma a decisão consciente e orientada de desejar saber a causa do seu declínio.[5]

O que muda quando o biomarcador é positivo

Sai "provável DA", entra maior certeza etiológica. Diante de um paciente com CCL ou demência amnéstica, antes se dizia que o fenótipo era compatível com doença de Alzheimer. Com biomarcador positivo, passa a se dizer que há doença de Alzheimer biologicamente confirmada. A diferença pesa mais em apresentações atípicas, em pacientes jovens e em casos com possível etiologia mista.

Separa síndrome de etiologia. "CCL" e "demência leve" descrevem o estado clínico; "doença de Alzheimer" passa a responder a outra pergunta — qual patologia está presente. Daí decorrem combinações que antes não se enunciavam: DA biologicamente confirmada com CCL, DA com demência leve, ou DA biologicamente presente ainda sem comprometimento cognitivo.

Muda diretamente a elegibilidade terapêutica. É hoje o ponto de maior consequência. Os tratamentos anti-amiloide exigem demonstração da patologia amiloide e se dirigem a estágios clínicos iniciais selecionados. O biomarcador deixa de ser apenas confirmatório e passa a ser biomarcador de seleção terapêutica — PET-amiloide ou marcadores liquóricos entram no fluxo decisório justamente porque podem alterar o tratamento.

Permite uma conversa prognóstica mais precisa, mas não define sozinho a velocidade de evolução. Um resultado A+ ou Core 1 positivo confirma a biologia da doença de Alzheimer, porém não informa, por si só, em quanto tempo haverá progressão clínica nem qual será a taxa de declínio.

O prognóstico depende da integração entre estágio clínico, grau de neurodegeneração, reserva cognitiva e copatologias, como doença vascular e corpos de Lewy. Em centros de pesquisa, marcadores relacionados à carga de tau podem refinar esse estadiamento, mas o tau-PET não está disponível na prática clínica no Brasil. Por isso, no nosso contexto, o estadiamento continua sendo predominantemente clínico, apoiado pelos biomarcadores disponíveis.

Qual exame, e o que existe no Brasil

Líquor. Aβ42, relação Aβ42/40, p-tau e tau total. A diretriz recomenda plataformas automatizadas em vez de ELISA, e que o laboratório forneça as razões entre analitos — que têm acurácia superior ao valor isolado.[5]

PET-amiloide. No Brasil estão disponíveis apenas os traçadores [11C]-PiB e [18F]-Florbetaben. Florbetapir, flutemetamol e flortaucipir não têm disponibilidade comercial no país — ou seja, PET-tau não é uma opção aqui.[5] Cautela acima dos 80 anos, faixa de alta positividade em assintomáticos.

FDG-PET. Padrão topográfico de hipometabolismo. É o biomarcador de primeira linha quando a hipótese é degeneração frontotemporal e quando é taupatia motora, conforme o fluxo intersocietário.[27] Na ausência de FDG-PET, SPECT com quantificação pode ser considerado.[5]

Biomarcadores plasmáticos. A p-tau217 foi aprovada pela ANVISA em agosto de 2026. A diretriz de 2024 já antecipava a condição de entrada: acurácia próxima de 90% contra PET-amiloide ou plataforma liquórica validada, com protocolos pré-analíticos e controle de qualidade equivalentes.[5] O que ainda falta, e é o ponto que importa para nós: normas locais para população brasileira. Enquanto não houver, o marcador plasmático não substitui líquor ou PET na confirmação diagnóstica — e a Academia Brasileira de Neurologia ainda não definiu formalmente o seu lugar no fluxo.

Neurofilamento de cadeia leve (NfL) na fronteira com a psiquiatria

Um cenário relativamente frequente: queixa cognitiva significativa, história psiquiátrica presente, e a dúvida entre neurodegeneração e transtorno psiquiátrico primário. É mais comum abaixo dos 65 anos, mas não se restringe a essa faixa — e, como se verá, a idade muda o quanto o exame ajuda.

O neurofilamento de cadeia leve (NfL) ajuda nessa fronteira. Em coorte clínica de 337 pacientes de serviço quaternário:

25,2pg/mL de NfL plasmático nas doenças neurodegenerativas
10,1pg/mL nos transtornos psiquiátricos primários

E, decisivo: não diferiu entre transtorno psiquiátrico primário e controles saudáveis.[36]

O desempenho depende fortemente da idade. Abaixo dos 60 anos, o NfL plasmático teve AUC de 0,89 e o liquórico 0,97 — nessa faixa, os autores sugerem que o plasmático isolado pode bastar. Entre 60 e 70 anos, a AUC cai para 0,76 em ambos, e a interpretação exige muito mais cautela.[36]

Três ressalvas que os próprios autores fazem questão de registrar: o NfL é inespecífico e se eleva de forma aguda ou subaguda em traumatismo craniano recente, AVC e delirium; há efeito de lote documentado entre plataformas e séries analíticas, com deslocamento do ponto de corte ótimo; e por isso eles desaconselham o uso de faixas de referência derivadas de outras coortes, defendendo controle local. A metáfora que usam é útil na conversa com o paciente: é uma espécie de "proteína C reativa do cérebro" — indica neurodegeneração, não diz qual.[36]

Anti-amiloide: elegibilidade operacional

Ambos aprovados pela ANVISA — donanemabe em 22 de abril de 2025 e lecanemabe em 22 de dezembro de 2025.[19][20] As duas aprovações brasileiras são restritas a não portadores e heterozigotos APOE ε4, o que torna a genotipagem parte obrigatória da decisão, e não um exame acessório.

Elegibilidade em 30 segundos

Precisa terNão pode ter / exige cautela maior
CCL ou demência leve por AlzheimerDemência moderada/avançada
Patologia amiloide confirmadaHomozigose APOE ε4
RM compatível com tratamentoCarga hemorrágica/CAA relevante
Acompanhante e adesão ao monitoramentoAnticoagulação e eventos neurológicos recentes
Estrutura de infusão + RM + manejo de ARIAInstabilidade clínica relevante

Critérios de inclusão[21]

CCL ou demência leve por doença de Alzheimer (CDR 0,5 ou 1); patologia amiloide comprovada por PET ou líquor; MEEM acima de 20 — com a ressalva de que o MEEM varia com escolaridade e comprometimento de linguagem e não deve ser usado isoladamente para elegibilidade; paciente em uso de anticolinesterásico; acompanhante disponível; compreensão de custos, benefícios e riscos.

Critérios de exclusão[19][20][21]

  • Homozigose APOE ε4.
  • CDR 0, ou CDR 2 e 3 / FAST acima de 4.
  • Outra condição contribuindo relevantemente para o declínio.
  • Mais de 4 micro-hemorragias, macro-hemorragia, siderose superficial, edema vasogênico ou angiopatia amiloide cerebral em ressonância.
  • AVC, AIT ou crise epiléptica nos últimos 12 meses.
  • Anticoagulação, plaquetas abaixo de 50.000 ou INR acima de 1,5.
  • Doença imunológica ou imunossupressão.
  • Instabilidade clínica cardíaca, respiratória ou renal.

Estrutura mínima exigida[21]

Especialista para o diagnóstico; ressonância antes e durante, com neurorradiologista capacitado para identificar ARIA; acesso a PET ou líquor; genotipagem de APOE; recursos de infusão e equipe treinada para reações infusionais; acesso a terapia intensiva e protocolo operacional padrão para ARIA grave.

Cronograma de ressonância: lecanemabe antes da 5ª, 7ª, 14ª e 26ª infusões; donanemabe antes das semanas 4, 12 e 24 — além de imagem imediata diante de cefaleia, náusea, tontura, confusão aguda, alteração visual, crise ou qualquer alteração neurológica nova.[21]

Elegibilidade real e limitações de instrumento

Aplicando os critérios dos ensaios a coortes de serviços de memória, a maioria dos pacientes não se enquadra.[21] E há uma limitação de instrumento que vale registrar: MEEM de 20 nem sempre reflete demência leve, e pacientes com alta demanda cognitiva dificilmente alcançam Pfeffer de 5. Nesses casos, a escala FAST pode quantificar melhor a funcionalidade.

A zona sem resposta

Apresentações atípicas — atrofia cortical posterior, variante logopênica, síndrome corticobasal — frequentemente não preenchem os critérios, porque o rastreio aparece muito alterado enquanto a funcionalidade permanece relativamente preservada. Não há dados suficientes para indicar nem para contraindicar; a decisão é caso a caso.

Contexto

A remoção de amiloide isoladamente responde por cerca de 35% de lentificação da progressão — o que sustenta a direção em que o campo caminha: alvos combinados, incluindo tau, inflamação e componente vascular, e intervenção mais precoce.[28]

Diagnóstico biológico e diagnóstico clínico-biológico

Vale conhecer o debate, porque ele chega ao consultório na forma de exames pedidos fora de contexto.

Os critérios revisados da Alzheimer's Association, de 2024, definem a doença como processo biológico: um biomarcador Core 1 alterado basta para o diagnóstico, mesmo em pessoa assintomática.[6] O International Working Group mantém a definição clínico-biológica: pessoa assintomática com biomarcador positivo está em risco, não doente.

A consequência prática é grande. Aplicados à população mundial, os dois critérios estimam algo em torno de 416 milhões e 101 milhões de pessoas com a doença — a mesma realidade, contada de dois jeitos.

Três observações que ajudam a navegar isso na prática:

  • O próprio documento de 2024 recomenda contra o teste diagnóstico em pessoas sem comprometimento cognitivo objetivo, fora de contexto de pesquisa, e registra que a proporção do déficit atribuível à doença de Alzheimer, versus outras entidades, não pode ser conhecida com certeza.[6]
  • A distinção semântica proposta na literatura recente é útil na conversa com o paciente: usa-se "com patologia de Alzheimer" quando não há síndrome clínica, ou quando a probabilidade de a patologia explicar os sintomas é baixa; e "devido à doença de Alzheimer" quando essa probabilidade é alta — determinação que depende de história e exame, não só do biomarcador.[29]
  • E copatologia é a regra em idosos. Alterações de mais de um tipo coexistem com frequência, e a matriz clínico-biológica dos critérios de 2024 formaliza a leitura: quem apresenta gravidade clínica maior que a biológica costuma ter copatologia; quem apresenta gravidade clínica menor costuma ter reserva ou resiliência.[6][10]

Instrumentos utilizados

Rastreio cognitivo global. MEEM com ponto de corte ajustado por escolaridade; Bateria Cognitiva Breve, que reúne nomeação, memória episódica visual por figuras, fluência semântica e desenho do relógio, e é a de melhor desempenho em baixa escolaridade; MoCA em alta escolaridade; ACE-R quando é necessária avaliação por domínio com um único instrumento. Em fases avançadas, MEEM grave, quando o instrumento padrão já não discrimina.

Memória. Lista de palavras do CERAD para memória verbal, com aprendizado, evocação tardia e reconhecimento; a evocação por figuras da Bateria Cognitiva Breve quando a escolaridade limita a versão verbal.

Linguagem. Nomeação pelo Boston reduzido, versão de 15 figuras; fluência verbal em suas duas modalidades, que avaliam coisas diferentes — a semântica, por categoria, depende mais das regiões temporais lateral e inferior, enquanto a fonêmica, por letra, exige busca estratégica mais ativa e é mais sensível ao funcionamento pré-frontal.

Funções executivas. Não são um domínio único, e cada componente pede um instrumento próprio:

  • Controle inibitório — tarefas de go/no-go e antissacadas, além dos itens correspondentes da Bateria de Avaliação Frontal.
  • Flexibilidade mental — série motora de Luria, prova de Ozeretski, teste do aplauso, e o Trail Making Test na parte B.
  • Planejamento e organização — desenho do relógio, pontuado pelo escore de Sunderland, e a fluência verbal nas duas modalidades acima.
  • Resolução de problemas — julgamento diante de situação hipotética, aplicado de forma estruturada.
  • Abstração — semelhanças e interpretação de provérbios.
  • Atenção e memória operacional — extensão de dígitos direta e inversa.
  • Velocidade de processamento — SDMT.

Habilidades visuoespaciais e perceptivas. Cópia de figuras e teste de cancelamento de linhas para rastreio; bateria CORVIST quando a suspeita é de comprometimento cortical posterior, situação em que os instrumentos habituais falham em capturar o déficit.

Funcionalidade. Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer; índice de Katz para atividades básicas; escala FAST quando o Pfeffer perde sensibilidade nos extremos.

Estadiamento. Clinical Dementia Rating, com atenção à soma das caixas — e, no comprometimento cognitivo vascular, à soma das caixas funcionais, dado que a CDR é fortemente ancorada em memória.[13]

Sintomas neuropsiquiátricos. Inventário Neuropsiquiátrico, versão reduzida, por informante.

Sobrecarga do cuidador. Escala de Zarit, versão de 22 itens — o instrumento mais utilizado internacionalmente para quantificar o impacto do cuidar sobre a vida emocional, social, física e financeira de quem cuida.[33][34]

Distribuição etiológica em população brasileira

A maior série clinicopatológica brasileira vem do Biobanco de Estudos do Envelhecimento da USP: 1.092 idosos autopsiados, com avaliação clínica retrospectiva por informante.[37]

44% (n = 480) preenchiam critérios neuropatológicos para algum diagnóstico — o que quer dizer que mais da metade da amostra não preenchia critérios para nenhum. Entre esses 480: 50% doença de Alzheimer, isolada ou combinada; 35% demência vascular; 18% doença com corpos de Lewy; 16% outros diagnósticos; e 20% patologia mista.[37]

Atenção ao denominador, porque a citação abreviada costuma trocá-lo: os percentuais são sobre os 480, não sobre os 1.092. Sobre a amostra inteira, a doença de Alzheimer aparece em 240 de 1.092 — cerca de 22%.

Um detalhe do critério que muda o número da demência vascular: os autores exigiram um infarto crônico maior que 1 cm ou três lacunas, e doença de pequenos vasos isolada não bastava para o diagnóstico. Registram na discussão que, se a doença de pequenos vasos difusa fosse incluída, a proporção de demência vascular subiria de 35% para 49%.[37]

Distribuição etiológica em série clinicopatológica brasileira de 1.092 idosos autopsiados.
Figura 06. Distribuição etiológica em população brasileira.

Encaminhamento:

Recebo encaminhamentos de colegas e fico à disposição para discutir casos com dúvida diagnóstica, apresentação atípica ou evolução rápida.

Quando disponíveis, é útil encaminhar também o rastreio cognitivo já realizado, alguma medida de funcionalidade por informante, exames laboratoriais recentes, neuroimagem com laudo e imagens e a lista de medicações em uso. Nada disso é obrigatório: o que já estiver disponível ajuda a tornar a primeira avaliação mais objetiva, e o restante pode ser organizado ao longo da investigação.

Uma informação faz diferença prática na agenda: quando o quadro evoluiu em semanas a poucos meses, vale sinalizar na solicitação. Esses casos entram como prioridade.

O agendamento é pelos canais habituais do consultório, no rodapé desta página.

Conteúdo clínico revisado em agosto de 2026