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Avaliar cognição não é medir apenas o que se perde, mas compreender como a experiência vivida da pessoa se transforma junto com sua biologia.

Cognição, Memória e Demências

Avaliação e acompanhamento de queixas cognitivas

Dr. Bruno Lucci · neurologista em Florianópolis e São Bento do Sul

Na maior parte das vezes, quem procura esta página não é a pessoa que está apresentando esquecimentos. É um filho, um cônjuge, um irmão: alguém que convive de perto e vem notando mudanças difíceis de nomear. A mesma pergunta feita três vezes na mesma conversa. Um caminho conhecido que ficou confuso. Uma conta que deixou de ser paga sem explicação. Um jeito de ser que mudou devagar, sem que ninguém saiba dizer exatamente quando começou.

Nem toda mudança assim é doença. Mas quase toda merece ser olhada com atenção, porque parte das intervenções depende do tempo de evolução dos sintomas.

Esta página reúne o que costumo explicar em consulta: o que é cognição, como se distingue o envelhecimento normal de um problema que precisa de investigação, como é feita a avaliação, o que os exames podem e não podem responder, o que existe de tratamento hoje, e como uma família se organiza a partir de um diagnóstico. É extensa de modo proposital, pois o tema exige clareza.

Use o índice para ir direto ao que interessa agora.

O que é cognição

Cognição é o conjunto de funções que o cérebro usa para compreender o mundo e responder a ele: guardar e recuperar informação, encontrar as palavras, reconhecer rostos e lugares, planejar uma tarefa, prestar atenção, calcular, entender o que o outro sente, executar um gesto aprendido.

Memória é a mais conhecida dessas funções, e por isso acabou virando sinônimo de cognição na conversa cotidiana. Mas é apenas uma entre várias, e não é sempre a primeira a ser acometida.

Ao lado dela estão a linguagem (encontrar palavras, compreender, nomear), as funções visuoespaciais (enxergar o mundo organizado no espaço, situar-se, não se perder), as funções executivas (planejar, decidir, resistir a um impulso, mudar de estratégia quando algo não dá certo), a atenção, a cognição social (perceber o que é adequado numa situação, ler a emoção do outro) e as praxias (executar movimentos aprendidos, como se vestir ou usar um talher).

E há as gnosias: a capacidade de reconhecer aquilo que os sentidos captam. É o que permite identificar uma chave apenas pelo tato, sem olhar; reconhecer o rosto de alguém conhecido no meio de uma multidão; saber, só pelo som, que aquilo é a campainha e não o telefone. Quando essa função falha, a pessoa continua enxergando, ouvindo e sentindo perfeitamente, mas o cérebro deixa de atribuir significado ao que recebe, e isso é frequentemente confundido com desatenção ou com problema de visão.

Essa variedade tem consequência prática. Há doenças cognitivas que começam pela dificuldade de encontrar palavras, e não pelo esquecimento. Há outras que começam pela visão: a pessoa passa meses trocando de óculos sem melhorar, porque o problema não está no olho, e sim na área do cérebro que interpreta a informação visual. E há aquelas que começam por mudanças de comportamento e de personalidade, quando a memória ainda está preservada.

Por isso a primeira pergunta de uma avaliação cognitiva não é "o quanto essa pessoa esquece", e sim quais funções mudaram, em que ordem, e em quanto tempo.

"Isso é da idade ou é outra coisa?"

Essa é a pergunta que traz quase todo mundo até aqui, e ela merece uma resposta honesta: envelhecer muda a cognição, sim, mas de um jeito específico, que é diferente do que acontece numa doença.

Com a idade, o cérebro fica mais lento para recuperar informação, não para armazená-la. É a diferença entre não achar o nome de uma pessoa na hora e reconhecê-lo imediatamente quando alguém diz. Isso acontece a todos, e mais à medida que os anos passam. Também é normal precisar de mais tempo para aprender algo novo, ou se distrair com mais facilidade quando há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

O que não é característico do envelhecimento típico:

  • Repetir a mesma pergunta várias vezes na mesma conversa, sem se dar conta de que já perguntou.
  • Esquecer um acontecimento inteiro, não o detalhe mas o episódio, e não se lembrar dele nem quando lembrado por outra pessoa.
  • Ter dificuldade crescente com tarefas que a pessoa dominava: pagar contas, cozinhar um prato conhecido, usar aparelhos de sempre.
  • Se perder em trajetos familiares.
  • Mudanças de comportamento, de humor ou de julgamento que fogem do jeito habitual de ser.
  • Piora perceptível de um ano para o outro.

Cognição ao longo de um espectro

Entre o envelhecimento típico e a demência existem etapas. A distinção mais importante não está apenas na pontuação dos testes, mas no impacto sobre a autonomia.

A queixa cognitiva subjetiva ocorre quando a pessoa ou a família percebe uma mudança, embora os testes ainda estejam dentro do esperado. É comum e, na maioria das vezes, não evolui para demência.[1]

No comprometimento cognitivo leve, os testes já mostram alterações, mas a independência permanece preservada. A pergunta que vem em seguida é sobre o que acontece depois, e a resposta é menos definitiva do que se imagina. Em um grande estudo francês de base nacional, cerca de 14 em cada 100 pessoas com comprometimento cognitivo leve evoluíram para demência a cada ano de acompanhamento, e esse risco era maior quando a memória era a função predominantemente afetada.[2] Dito de outro modo: a maior parte não evoluiu naquele período. Há quem permaneça estável por anos, e há quem volte ao desempenho esperado, sobretudo quando existe uma causa tratável por trás da alteração.

Na demência, o comprometimento cognitivo passa a interferir na autonomia. Não é uma doença específica nem implica necessariamente piora contínua: é uma síndrome clínica.

Espectro do envelhecimento típico à demência, em quatro etapas, com a perda de autonomia marcando a passagem para demência.
Figura 01. Um espectro, não um interruptor: o limite entre comprometimento leve e demência é a autonomia, não a pontuação do teste.

A dimensão do problema no Brasil

8,5%dos brasileiros com mais de 60 anos vivem com demência

Isso representa cerca de 2,46 milhões de pessoas. Consenso de especialistas brasileiros, 2025.[3]

Quando procurar uma avaliação

Vale procurar avaliação quando existe mudança persistente em relação ao funcionamento habitual, especialmente se outra pessoa também percebeu essa mudança, se já surgiram dificuldades com contas, medicações, trabalho, direção ou compromissos, ou se houve alteração de comportamento ou julgamento.

Também merecem atenção especial sintomas que começam antes dos 65 anos ou evoluem rapidamente, ao longo de semanas ou poucos meses. Mudanças rápidas devem ser avaliadas com maior urgência, porque algumas causas são potencialmente tratáveis.

Como é a avaliação

Muita gente chega à primeira consulta esperando um exame capaz de dar a resposta. Na prática, a avaliação cognitiva é um processo: começa pela história, passa pelo exame clínico e pelos testes, e usa exames complementares quando necessário. Entender esse caminho ajuda a tornar a investigação mais clara e menos angustiante.

Quem vem junto faz parte do exame

Essa é a diferença mais importante entre uma consulta de neurologia cognitiva e qualquer outra: o relato de quem convive com a pessoa não é um complemento, é parte do exame.

Há uma razão clínica para isso. Em boa parte das doenças cognitivas, a própria pessoa perde a percepção da mudança, não por negação, mas porque a função cerebral que permite monitorar o próprio desempenho também é afetada. Isso se chama anosognosia e está presente em até metade dos casos de doença de Alzheimer.[4] Quem tem, não sabe que tem. É por isso que a pessoa muitas vezes diz que está tudo bem, com sinceridade, enquanto a família descreve uma realidade diferente.

Então, se possível, venha acompanhado de alguém que conviva de fato, não de quem visita de vez em quando. E vale a pena que essa pessoa anote antes da consulta: o que mudou, quando começou, e um ou dois exemplos concretos.

O que acontece na consulta

  • História detalhada. Que funções mudaram, em que ordem, com que velocidade, e o que exatamente a pessoa deixou de fazer. Doenças cognitivas diferentes começam de formas diferentes, e o padrão de início é a informação mais valiosa da avaliação inteira.
  • Exame neurológico completo. Estado mental, funções corticais superiores, nervos cranianos, força, tônus e reflexos, sensibilidade, coordenação, movimentos involuntários, marcha e equilíbrio, além dos sinais neurológicos específicos que apontam para causas determinadas. Cognição é parte do exame neurológico, não um capítulo separado dele.
  • Testes cognitivos. Instrumentos padronizados, aplicados no consultório, que medem o desempenho em cada função. Alguns são breves e servem de rastreio. Outros são mais detalhados e avaliam um domínio específico. Nenhum deles, sozinho, dá um diagnóstico. Eles medem desempenho; o diagnóstico vem do conjunto.
  • Avaliação da funcionalidade. Uma coisa é o desempenho num teste; outra é a vida real. Existem escalas específicas, respondidas pelo acompanhante, que medem o que a pessoa efetivamente ainda faz sozinha. É essa medida, não a pontuação do teste, que separa comprometimento cognitivo leve de demência.
  • Estadiamento. Quando há demência, define-se o estágio a partir de domínios como memória, orientação, julgamento, vida em comunidade, atividades em casa e cuidado pessoal. Isso orienta o tratamento e permite acompanhar a evolução com uma régua estável.
  • Sintomas neuropsiquiátricos. Avaliados de forma sistemática, com instrumento próprio, cobrindo doze domínios: delírios, alucinações, agitação ou agressividade, depressão, ansiedade, euforia, apatia, desinibição, irritabilidade, alterações motoras repetitivas, comportamento noturno e mudanças de apetite. Pode ser a parte que mais pesa no dia a dia da família e a que menos costuma ser perguntada.

O raciocínio: a hipótese vem antes do exame

Aqui está o ponto que organiza tudo o mais.

História, exame e testes geram uma hipótese: qual síndrome é esta, e quais são as causas mais prováveis. É a hipótese que determina qual exame pedir — e não o contrário. Não se investiga "tudo" na esperança de que algum exame aponte a resposta. Investigação sem hipótese produz achados sem significado, custo desnecessário e, frequentemente, mais angústia do que esclarecimento. Não é apenas ineficiente: rastrear biomarcadores sem indicação clínica não é recomendado por nenhuma sociedade científica, brasileira ou internacional.[5][6]

Nem tudo que é biológico é clinicamente relevante.
Giovanni Frisoni

Encontrar uma alteração em um exame não é o mesmo que ter uma doença clinicamente manifesta. Quando um exame é solicitado sem uma hipótese clínica bem definida, aumenta o risco de identificar achados de significado incerto, gerar preocupação e levar a novas investigações sem benefício real.

Os exames, e o que cada um responde

Exames de sangue. Na investigação de comprometimento cognitivo objetivo, exames laboratoriais básicos fazem parte da avaliação inicial. Servem para identificar condições que afetam a cognição e são tratáveis: alterações da tireoide, deficiência de vitamina B12, distúrbios metabólicos, infecções.

Neuroimagem estrutural. A neuroimagem estrutural integra a investigação da maior parte dos pacientes com comprometimento cognitivo objetivo. Ressonância magnética quando possível, tomografia como alternativa. Serve para excluir causas estruturais, avaliar a carga de doença vascular e verificar padrões de atrofia. Uma imagem normal não exclui doença; uma imagem alterada nem sempre explica o quadro.

Líquor. A punção lombar pode ser usada, entre outras finalidades, para pesquisar biomarcadores da doença de Alzheimer. Não é um exame necessário para todos os pacientes: costuma ser reservado para situações em que a causa do comprometimento cognitivo permanece incerta, especialmente em casos de início precoce, apresentação atípica, progressão rápida ou quando a confirmação biológica da doença de Alzheimer pode mudar a conduta.

Medicina nuclear. São exames de imagem que respondem a perguntas diferentes: um mostra se há depósito de proteína no cérebro, outro mostra como as regiões cerebrais estão funcionando. São usados em situações selecionadas, quando a história, o exame e a ressonância não bastam para definir a causa.[24]

Teste genético para APOE. Não é teste diagnóstico e não deve ser pedido por curiosidade. Tem indicação específica quando se cogita tratamento com anticorpos anti-amiloide, porque o resultado muda o risco do tratamento e, no Brasil, define quem pode recebê-lo.

Exames de sangue para Alzheimer. É o assunto do momento, e merece cuidado. Já existe um exame de sangue capaz de detectar alterações relacionadas à doença de Alzheimer, aprovado pela ANVISA em agosto de 2026. É um avanço real. Mas estar aprovado não é o mesmo que já ter lugar definido: seguimos avaliando a disponibilidade no país, o desempenho na população brasileira e em quais situações o resultado muda de fato a conduta. Assim que esse lugar estiver mais claro, esta página será atualizada.

O que está disponível nos meus atendimentos

Em casos selecionados, realizo punção lombar para investigação de biomarcadores da doença de Alzheimer, com análise de p-tau, relação Aβ42/Aβ40 e NfL, conforme a indicação clínica. O procedimento pode ser realizado em Florianópolis e São Bento do Sul, com processamento das amostras em laboratório de referência do Hospital Israelita Albert Einstein. PET-amiloide e teste genético para APOE também podem ser solicitados quando houver indicação.

Fluxo da investigação cognitiva: da queixa à síndrome, da síndrome à hipótese, e só então ao exame dirigido.
Figura 02. A hipótese vem antes do exame: da queixa à síndrome, da síndrome à hipótese, e só então ao exame dirigido.

Por que a escolaridade muda o diagnóstico

Há um detalhe técnico que quase nunca chega ao paciente, e que no Brasil faz diferença entre um diagnóstico correto e um erro.

O Mini Exame do Estado Mental é o teste cognitivo mais aplicado do mundo. Foi publicado em 1975, por pesquisadores americanos, e validado em um hospital psiquiátrico particular de Nova York. O artigo original não menciona escolaridade em nenhum momento[7]: não mediu, não estratificou, não alertou. Na época, naquele contexto, o problema simplesmente não aparecia.

No Brasil, aparece. Grande parte dos testes cognitivos depende de leitura, escrita, cálculo e familiaridade com o formato de uma prova. Uma pessoa que estudou até a quarta série pode ter dificuldade num item por nunca ter praticado aquilo, e não porque o cérebro adoeceu. Aplicar um ponto de corte único a toda a população significa, na prática, rotular como doente quem tem menor escolaridade.

E não é um detalhe estatístico. Segundo as recomendações da Academia Brasileira de Neurologia, a prevalência de demência entre pessoas analfabetas com mais de 60 anos chega a 23% em uma coorte brasileira.[1] Parte dessa diferença é real: baixa escolaridade é, de fato, o fator de risco de maior peso para demência no Brasil.[9] Parte é erro de medida. Separar as duas é trabalho clínico.

Por isso, aqui, o teste escolhido e o valor considerado normal levam em conta a escolaridade e a história de cada pessoa.

O que causa o comprometimento cognitivo

Raramente há uma causa isolada

Em pessoas mais velhas, é comum coexistirem diferentes processos patológicos no mesmo cérebro, por exemplo alterações típicas do Alzheimer e doença vascular.[10] Isso não significa que todo achado esteja causando sintomas. Significa que o diagnóstico precisa integrar história, exame, testes e imagem.

Há uma consequência prática importante. Estudos que combinaram avaliação cognitiva em vida com exame do tecido cerebral mostram que a lesão vascular acelera o declínio de forma independente e somada à patologia de Alzheimer: as duas se acumulam, sem que uma dependa da outra.[30] Ou seja: mesmo quando existe um componente degenerativo que ainda não temos como deter, controlar os fatores de risco vascular continua sendo parte fundamental do tratamento. É a parcela do dano sobre a qual ainda se pode agir.

Doença de Alzheimer

É a causa mais frequente. Em cerca de 80% dos casos, apresenta-se como uma síndrome amnéstica típica: dificuldade de registrar e recuperar acontecimentos recentes, frequentemente sem recuperação adequada mesmo com pistas.[11]

Nos demais, pode começar por outras funções. Na atrofia cortical posterior, predominam dificuldades visuoespaciais; na variante de linguagem, a dificuldade de encontrar palavras; e em apresentações comportamentais ou executivas, mudanças de planejamento e comportamento podem anteceder a queixa de memória.[11][12]

Comprometimento cognitivo vascular

É uma causa particularmente relevante no Brasil.[13] A apresentação depende da localização e da carga das lesões. Após AVCs, a piora pode ocorrer em degraus; na doença de pequenos vasos, costuma ser insidiosa, com lentificação, dificuldade executiva e de atenção, alterações de marcha, sintomas urinários e apatia.

A combinação com Alzheimer é frequente. Isso reforça, e não reduz, a importância de tratar hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo e outros fatores vasculares.

Demência com corpos de Lewy e demência da doença de Parkinson

Podem combinar comprometimento cognitivo com parkinsonismo, flutuações importantes de atenção, alucinações visuais bem formadas e transtorno comportamental do sono REM, às vezes presente muitos anos antes dos demais sintomas.

Degeneração frontotemporal

É uma causa importante de demência de início precoce e pode ser confundida com doença psiquiátrica.[14] Na variante comportamental, predominam perda de iniciativa, desinibição, perda de empatia, comportamentos repetitivos, rigidez e mudanças alimentares. Nas variantes de linguagem, a fala e o conhecimento das palavras são afetados antes da memória episódica.

O cuidado está nos dois sentidos: mudanças comportamentais podem ser manifestação neurológica, mas nem toda mudança de comportamento é degeneração frontotemporal. A distinção depende do conjunto: história com informante, avaliação comportamental, exame neurológico e neuroimagem, com exames adicionais quando indicados.[14]

Quando não é uma doença neurodegenerativa

Depressão, outros transtornos psiquiátricos, apneia do sono, determinadas medicações, distúrbios metabólicos e consumo de álcool podem produzir ou agravar comprometimento cognitivo. Por isso a investigação não começa assumindo uma doença degenerativa.

Causas reversíveis

Infecções, doenças autoimunes do sistema nervoso, deficiências vitamínicas, doenças da tireoide, hidrocefalia de pressão normal, tumores e efeitos de medicamentos estão entre as causas potencialmente reversíveis dos transtornos cognitivos. Em um estudo conduzido em quatro hospitais terciários de Florianópolis com pacientes de declínio cognitivo rápido, 29,8% tinham causa potencialmente reversível, e 9,6% efetivamente melhoraram.[15]

Conclusão prática: quando a evolução ocorre em semanas ou poucos meses, investigar cedo pode mudar o desfecho.

Tratamento

Os efeitos esperados dos medicamentos disponíveis são, em geral, modestos e podem se traduzir por estabilização ou piora mais lenta.[16] Isso não é motivo para não tratar; é motivo para definir corretamente o objetivo: preservar autonomia, controlar sintomas e evitar perdas evitáveis pelo maior tempo possível.

1. Medicamentos para a cognição

Existem hoje medicamentos voltados aos sintomas cognitivos. São tratamentos sintomáticos: não interrompem a doença, mas podem melhorar ou estabilizar o desempenho por um período.[16]

Todos são vendidos sob prescrição médica, e por boas razões. A indicação depende do diagnóstico e do estágio, a dose é ajustada aos poucos, conforme a tolerância de cada pessoa, e a resposta é avaliada ao longo do acompanhamento, em consulta. Efeitos adversos existem, alguns exigem atenção específica, e a decisão de iniciar, manter ou suspender é individual. Nada disso cabe numa regra geral, e é por isso que a escolha se faz caso a caso.

Duas ressalvas que vale conhecer. No comprometimento cognitivo leve, esses medicamentos não são indicados para prevenir a evolução para demência. E no comprometimento cognitivo vascular, o benefício cognitivo tende a ser pequeno e nem sempre se traduz em diferença perceptível no dia a dia.[25][26]

2. Controle dos fatores de risco vascular

Pressão arterial, glicemia, colesterol, tabagismo e arritmias fazem parte do tratamento em qualquer etiologia. Controlá-los reduz a parcela adicional de dano vascular acumulado ao longo do tempo.

3. Prescrição cognitiva: escolher a modalidade certa

Estimulação, treino e reabilitação cognitiva não são a mesma coisa, e a escolha depende do objetivo terapêutico: desempenho cognitivo, qualidade de vida ou preservação de uma atividade concreta do cotidiano.[17]

ModalidadeComo é feitaExemplosO que se busca
Estimulação cognitivaAtividades e conversas com tema, quase sempre em grupo, envolvendo várias funções ao mesmo tempo.Grupos de conversa sobre um assunto, jogos, música, culinária, jardinagem, discussão de notícias.Cognição global e qualidade de vida, em determinados estágios.
Treino cognitivoPrática repetida de uma função específica, com dificuldade que aumenta aos poucos.Exercícios de atenção, de memória ou de velocidade de raciocínio, no papel ou em aplicativo, com progressão.Desempenho nas tarefas efetivamente treinadas, sobretudo em fases leves.
Reabilitação cognitivaIndividual, construída sobre uma meta concreta escolhida pela pessoa e pela família.Voltar a usar o celular para falar com os netos, organizar as próprias medicações, retomar um prato na cozinha, usar uma agenda.Manutenção daquela atividade concreta no dia a dia.

As três podem se combinar ao longo do acompanhamento, e a escolha é revista conforme o objetivo muda.

Vale dizer com clareza o tamanho do que se pode esperar. A evidência disponível é de qualidade limitada, os estudos são heterogêneos entre si e os efeitos, quando aparecem, são modestos e nem sempre se mantêm ao longo do tempo.[17] Isso não retira a indicação: são intervenções de baixo risco, e manter uma atividade que importa àquela pessoa tem valor próprio, independentemente do que um teste mostre. Mas afasta a expectativa de recuperação cognitiva.

Essas intervenções dependem de uma rede de profissionais: fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia, psicologia, gerontologia e educação física.

4. Sintomas neuropsiquiátricos

Agitação, apatia, ansiedade, desconfiança e alterações do sono podem ser a parte mais desgastante para a família. A primeira conduta é procurar causas precipitantes: infecção, dor, constipação, alterações metabólicas, medicamentos ou mudanças ambientais.[18]

Dor não reconhecida pode se manifestar como agitação, e seu tratamento pode reduzir significativamente sintomas comportamentais.[27]

Depois vêm intervenções ambientais e relacionais: rotina, iluminação, redução de estímulos e adaptação da forma de abordagem. Medicamentos entram quando necessários e com critério. Antipsicóticos podem ser úteis em situações selecionadas, mas se associam a aumento de mortalidade em pessoas com demência; benzodiazepínicos são, em geral, evitados.[18]

Anticorpos anti-amiloide: quem pode, quem não pode, e o que ainda não sabemos

Por que mirar no amiloide. Na doença de Alzheimer, o cérebro acumula duas proteínas em excesso. A primeira é o beta-amiloide, que forma placas entre os neurônios muitos anos antes de qualquer sintoma. Depois vem a tau, que se acumula dentro dos neurônios e vai se espalhando, e é essa segunda etapa que acompanha mais de perto a perda de função. A ideia que sustenta esses tratamentos é a de que o amiloide funciona como o gatilho da sequência: reduzi-lo cedo poderia desacelerar o que vem depois. É uma hipótese apoiada em muita evidência, mas ainda em teste. E é justamente por isso que remover placa não significa, automaticamente, melhora clínica.

Os anticorpos anti-amiloide são medicamentos aplicados por infusão, que removem essas placas do cérebro. Dois deles estão aprovados pela ANVISA, desde abril e desde dezembro de 2025, para grupos específicos de pessoas com doença de Alzheimer em fase inicial.[19][20]

O que os estudos mostraram

Nos ensaios clínicos, os dois anticorpos reduziram de forma expressiva a carga de placa amiloide no cérebro. O efeito clínico é bem menor do que essa redução sugere: houve desaceleração estatisticamente significativa da progressão cognitiva e funcional, mas de magnitude modesta, e o quanto ela representa no dia a dia de cada pessoa segue em discussão entre especialistas.[21] Nenhum dos dois recupera funções já perdidas, e nenhum interrompe a doença. O que está em questão é retardar a progressão. Por quanto tempo, e com que diferença perceptível para a família, os estudos ainda não respondem por completo.

Os riscos

O principal é a ARIA: alterações de edema ou sangramento detectadas na ressonância. A maioria é assintomática, mas algumas causam sintomas e uma pequena parcela pode ser grave. O risco varia conforme genética, achados prévios na ressonância e outros fatores clínicos.[21]

Quem pode ser candidato

Em linhas gerais, considera-se tratamento em pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve por Alzheimer, com patologia amiloide confirmada e condições clínicas e de imagem compatíveis. Não estão indicados para quem não apresenta comprometimento cognitivo objetivo, nem para demência moderada ou avançada.[19][20][21]

Entre os principais fatores que podem impedir o tratamento estão ter duas cópias do gene APOE ε4, uso de anticoagulantes, achados de maior risco hemorrágico na ressonância, eventos neurológicos recentes e outras condições que contribuam de forma relevante para o declínio.[19][20][21]

Por que a seleção é tão importante

Quando os critérios dos estudos são aplicados a pacientes reais de serviços de memória, apenas uma minoria se enquadra; em algumas análises, cerca de 8% dos pacientes avaliados seriam elegíveis.[21] Além disso, o tratamento exige confirmação diagnóstica, infusões periódicas, ressonâncias de monitoramento e uma estrutura capaz de reconhecer e manejar complicações.

Minha posição

A terapia anti-amiloide exige confirmação diagnóstica, seleção criteriosa e uma linha de cuidado integrada, preparada para monitorar e tratar possíveis complicações. Essa estrutura inclui avaliação de elegibilidade, confirmação por biomarcadores, genotipagem para APOE, estratificação de risco, ressonâncias seriadas e acesso a suporte adequado durante o tratamento. A segurança depende tanto da escolha correta do paciente quanto da coordenação entre neurologia, centro de infusão, radiologia e suporte hospitalar.

Ao mesmo tempo, a evidência sobre seus resultados na população brasileira ainda está sendo construída. Como toda ciência conduzida com boas práticas, esse processo exige acompanhamento, dados de vida real e tempo para compreender com precisão benefícios, riscos e aplicabilidade no nosso contexto.

Dr. Bruno Lucci · neurologista, CRM-SC 28998 · RQE 29068

O que reduz o risco

Uma parcela importante do risco de demência está associada a fatores potencialmente modificáveis, e esse peso parece ser particularmente relevante no Brasil.

Um estudo brasileiro publicado em 2025, com quase 10 mil participantes de uma amostra nacionalmente representativa, estimou que 59,5% dos casos de demência no país estão associados a 14 fatores potencialmente modificáveis.[9] A estimativa mundial é de cerca de 45%.[32] Essa diferença provavelmente reflete, em parte, desigualdades no acesso à educação, prevenção e cuidados de saúde.

Os três fatores de maior peso no Brasil são baixa escolaridade (9,5%), perda visual não tratada (9,2%) e depressão na meia-idade (6,3%).[9] Os dois primeiros ilustram como o risco de demência também é influenciado por condições sociais e pelo acesso ao cuidado, não apenas pela biologia individual.

Esse número descreve o quanto do risco está associado a esses fatores, num cenário em que fossem inteiramente eliminados. Na vida real a leitura correta é mais simples: é possível reduzir risco, não garantir prevenção.

O que dizem as recomendações internacionais

A Organização Mundial da Saúde reúne essas medidas em uma estratégia de redução de risco ao longo da vida, atualizada na segunda edição de suas diretrizes, de 2026.[31] O princípio é semelhante ao da prevenção cardiovascular: não existe uma intervenção isolada capaz de prevenir demência, mas há benefício em atuar sobre fatores modificáveis, especialmente atividade física, fatores vasculares e metabólicos, tabagismo, consumo nocivo de álcool, audição e outros componentes de saúde geral, conforme o perfil de cada pessoa.

Onde vale a pena colocar esforço

Visão e audição. No cálculo brasileiro, a perda visual não tratada é o segundo fator de maior peso, e é, em boa medida, corrigível. Consulta oftalmológica, cirurgia de catarata, correção adequada. Quanto à audição, cada 10 decibéis de perda se associa a cerca de 16% mais risco de demência.[22] Porém, o único estudo grande de aparelhos auditivos não mostrou benefício no grupo total, com efeito aparecendo apenas no subgrupo de maior risco.[22] A associação é sólida; o tratamento como prevenção ainda não está provado. Mesmo assim, tratar perda auditiva melhora comunicação, participação social e humor, o que já basta como indicação.

Atividade física. Associada a redução de cerca de 35% no risco relativo de declínio cognitivo, e recomendada pela diretriz brasileira a todos, já na atenção primária.[16]

Alimentação. A dieta mediterrânea e a MIND (adaptada para saúde cerebral) têm a melhor evidência de benefício. O padrão é baseado em vegetais, azeite, peixes, frutas, cereais integrais, leguminosas e pouco processamento, e não em suplementos isolados.[21]

Pressão, glicemia e colesterol, tratados a tempo, especialmente na meia-idade, quando o benefício é maior.

Depressão, tratada. É o terceiro fator de maior peso no Brasil, e o mais subdiagnosticado dos três.

Sono. Tratar apneia obstrutiva, subdiagnosticada e com impacto direto sobre o desempenho cognitivo.

Vida social e atividade mental que sejam efetivamente engajantes. Aqui vale desfazer um mito: não existe evidência de que palavras cruzadas ou aplicativos de treino cerebral previnam demência. O que aparece nos estudos é o efeito de atividades que exigem envolvimento real, aprendizado novo e convívio.

Programas multidomínio

Os melhores resultados até agora vêm de abordagens que atuam em várias frentes ao mesmo tempo, atividade física, alimentação, treino cognitivo, participação social e controle de fatores de risco vascular. Intervenções isoladas tendem a produzir efeitos menores e menos consistentes.

Durante muitos anos, essa evidência veio principalmente da Europa e dos Estados Unidos. O estudo LatAm-FINGERS, publicado em agosto de 2026, avaliou uma intervenção multidomínio adaptada ao contexto latino-americano, com mais de mil participantes de 11 países, incluindo o Brasil.[23]

Os dois grupos apresentaram melhora ao longo do acompanhamento, mas o grupo submetido ao programa estruturado teve desempenho cognitivo discretamente superior. O efeito foi pequeno, porém estatisticamente significativo, e o estudo não demonstrou redução da incidência de demência.

Sua principal contribuição é outra: mostrar que esse tipo de estratégia pode ser aplicado e produzir benefício mensurável também em uma população latino-americana, reduzindo a dependência de evidências extrapoladas de outros contextos.

Programas multidomínio: as cinco frentes combinadas e o tamanho do ganho observado no estudo LatAm-FINGERS.
Figura 03. Programas multidomínio: as cinco frentes que o programa combina, e o tamanho do ganho observado no estudo LatAm-FINGERS.
59,5% dos casos de demência no Brasil associados a fatores modificáveis, com baixa escolaridade, perda visual e depressão como os três de maior peso.
Figura 3.1. O que pesa no Brasil: fração dos casos associada a fatores potencialmente modificáveis.

Para a família e quem cuida

Um diagnóstico de demência muda a vida de mais de uma pessoa. Esta parte da página é para quem cuida.

O que esperar ao longo do tempo

A fase avançada é o período mais longo da doença, e também o mais heterogêneo: pessoas classificadas no mesmo estágio podem ter habilidades bastante diferentes.[27] Por isso o cuidado nessa etapa se organiza a partir do que aquela pessoa ainda faz, e não do rótulo do estágio.

A sequência funcional costuma seguir uma ordem reconhecível, e saber disso ajuda, não para antecipar sofrimento, mas para preparar decisões antes que elas se tornem urgentes.

Primeiro se perdem as atividades complexas: administrar dinheiro, organizar uma viagem, cozinhar um prato elaborado, cuidar das próprias medicações, dirigir com segurança. Depois, as atividades instrumentais do dia a dia: usar o telefone, fazer compras, cuidar da casa. Mais adiante, o cuidado pessoal: escolher a roupa adequada, vestir-se, tomar banho, higiene. Em fases avançadas, surgem dificuldades de continência, mobilidade, deglutição e comunicação.

Cada uma dessas transições tem condutas práticas associadas, e a maior parte não é médica. Antecipar costuma funcionar melhor do que reagir.

Sequência de perda funcional em quatro etapas, das atividades complexas às funções básicas.
Figura 04. A sequência funcional: a autonomia costuma se perder numa ordem reconhecível.

Manejo prático: quase nada tem uma causa só

Complicações comuns na demência avançada costumam resultar de três coisas ao mesmo tempo: algo no paciente, algo em quem cuida e algo no ambiente. Tratar apenas uma das três frequentemente não resolve.[27]

Dor. Em fases avançadas, a pessoa pode ter dificuldade de localizar ou relatar dor. Agitação, recusa ao cuidado e alteração do sono podem ser suas manifestações. Observação estruturada, posicionamento, mobilização gentil e avaliação de causas como problemas dentários ajudam a identificá-la.[27]

Infecções e constipação. Piora súbita de comportamento deve levantar a possibilidade de uma intercorrência clínica. Hidratação, higiene, vacinação, saúde bucal, mobilidade e regularidade intestinal fazem parte da prevenção cotidiana.[27]

Alimentação. Perda de peso e dificuldade para engolir são frequentes nessa fase e merecem avaliação assim que os primeiros sinais aparecem: engasgos, tosse durante a refeição, refeições que passam a demorar muito mais, recusa de determinadas consistências. A avaliação fonoaudiológica orienta consistência, postura e ritmo, e o acompanhamento nutricional entra junto. As diretrizes brasileiras recomendam abordagem multidisciplinar nesta etapa.[27] Mudanças simples no ambiente da refeição também fazem diferença: não ter pressa, oferecer comida de que a pessoa gosta, manter o mesmo cuidador nas refeições sempre que possível, ambiente tranquilo e familiar, refeições menores e mais frequentes.

Recusa ao cuidado. Raramente é teimosia. Quase sempre é resposta a uma abordagem que assustou, a excesso de estímulo, ou a uma tarefa apresentada de forma confusa. Ajuda: abordar de frente, falar devagar, uma instrução por vez, dar tempo, reduzir barulho e plateia.[27]

Corrigir ou não corrigir. Quando a pessoa erra um fato, troca um nome ou conta algo que não aconteceu, corrigir raramente ajuda: gera constrangimento e conflito, sem melhorar a memória. Costuma funcionar melhor acolher a emoção que está por trás da fala e redirecionar a conversa com gentileza.

Alterações do sono. Ajuda: luz natural durante o dia, atividade diurna, ambiente escuro e silencioso à noite, evitar cochilos longos ao fim da tarde, avaliar dor, fome, frio e necessidade de banheiro antes de pensar em medicação.[27]

Decisões que é melhor tomar cedo

Algumas conversas ficam impossíveis se adiadas, e é justamente por serem difíceis que costumam ser postergadas.

Direção veicular. Não há idade que defina. É por meio da avaliação da condição neurológica vigente que se define o momento de parar.

Finanças e documentos. Organizar contas, procurações e responsabilidades enquanto a pessoa ainda participa plenamente das decisões ajuda a preservar autonomia e reduzir conflitos futuros. Quando esse planejamento é adiado, decisões simples podem acabar exigindo medidas legais mais complexas.

Vontades sobre o próprio cuidado. Conversar sobre o que a pessoa gostaria, e o que não gostaria, caso um dia não possa mais decidir por si mesma. As diretrizes brasileiras recomendam que esse planejamento comece cedo, enquanto a pessoa ainda pode participar ativamente das decisões.[27]

Segurança em casa. Fogão, escadas, tapetes, medicações, trancas, identificação. Adaptações simples previnem os acidentes mais comuns.

Cuidar de quem cuida

A sobrecarga do cuidador é um desfecho clínico mensurável, com impacto emocional, social, físico e financeiro. Pode ser avaliada com instrumentos como a Escala de Sobrecarga do Cuidador de Zarit.[28][29] Cerca de 32% dos cuidadores apresentam sobrecarga elevada e 19%, sobrecarga intermediária. Níveis altos se associam a piores desfechos de saúde do próprio cuidador.[29]

Por isso a situação de quem cuida entra na consulta como item próprio. As diretrizes brasileiras recomendam explicitamente que a saúde mental de quem cuida seja abordada, que a assistência tenha como alvo a qualidade de vida da família inteira, e que se organize rodízio entre cuidadores (outros familiares, ou apoio em meio período) antes que o esgotamento se instale.[27]

Na prática, isso significa dividir o cuidado antes do limite, aceitar ajuda, manter algo que seja só seu, e trazer as próprias dificuldades para a consulta. Elas são pauta legítima, não desabafo fora de hora.

Nas fases avançadas, o cuidado muda de forma, não termina

Existe uma ideia equivocada de que, a partir de certo estágio, "não há mais o que fazer". Há muito a fazer; o que muda é o objetivo. Deixa de ser recuperar função e passa a ser garantir conforto, dignidade e a melhor qualidade de vida possível, o que exige tanto conhecimento técnico quanto qualquer outra fase.

Nessa etapa, o cuidado deve ser dividido. A medicina paliativa é a especialidade que melhor conduz esse momento, e trabalhar em conjunto com ela não significa desistir de tratar: significa colocar no caso o profissional mais preparado para manejar dor, sintomas de difícil controle, decisões sobre alimentação e vias de administração, e o apoio à família — inclusive depois. As diretrizes brasileiras reforçam que essa conversa não deve esperar a fase terminal.[27]

O que se mantém é o acompanhamento neurológico naquilo que lhe cabe: revisar e simplificar medicações, retirar o que já não faz sentido, tratar sintomas neuropsiquiátricos, orientar quem cuida e ajudar a definir o que é proporcional em cada momento. Acompanhar até o fim, dividindo o cuidado com quem faz isso melhor, faz parte do que entendo por tratar.

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Dr. Bruno Lucci, neurologista

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